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quarta-feira, dezembro 29

À primeira vista

Lembro-me como se fosse hoje da tarde em que nos conhecemos e você me sorriu pela primeira vez. Pediu desculpas por ter esbarrado em mim e riu aprovando a camiseta engraçada que eu usava naquele dia. Lembro que passamos o restante do show olhando um para outro naquela arquibancada tão cheia de pessoas que pulavam, gritavam e suavam. Eu não parecia feliz e você parecia incomodada com isso. Eu estava encabulado por não conseguir tirar os olhos de você, que já parecia perceber. Sempre que nossos olhares se cruzavam desviávamos um do outro, mirando os próprios pés.
Finalmente aquele show terminara, mas com ele você também ia embora e me deixava ali. Foi então que por movido sabe-se lá por quem eu fui até você e lhe entreguei um papel. Seus amigos todos riram. Você apenas o pegou e sorriu, depois seguiu rumo à saída sem olhar para trás. Não deixou nenhuma esperança, apenas aquela sensação de rejeição.
Odiei-me, me achei um imbecil. Pensava em inúmeras possibilidades, tantos ‘ses’ enchiam a minha cabeça. ‘Se’ eu tivesse falado com ela, ‘Se’ eu tivesse sido mais agradável e animado durante o show, ‘Se’ eu não tivesse esperado ela ir embora para demonstrar meu interesse. Definitivamente eu sentia algo errado comigo, não conseguia tirá-la dos meus pensamentos, ela me visitava em meus sonhos incansavelmente. O mais estranho era a esperança que ardia dentro de mim. Eu imaginava que iria me deparar com ela em todo lugar. Na escola, no restaurante, na lanchonete. Confesso que tantas vezes fui passear pela cidade esperando encontrá-la. Eu queria ver aquele sorriso mais uma vez, poder apreciá-la, talvez, quem sabe, até conseguiria conversar com ela.
Foi então que um dia, voltando do colégio eu a vi passar, dentro de um ônibus, linda e com os cabelos esvoaçantes, um rosto belíssimo misturado com um meio sorriso. O olhar estava perdido, permitindo olhar as coisas por onde passava sem dar exclusividade a nada, apenas olhando. Mais uma vez os nossos olhares! Os nosso olhares! Eu podia sentir que ela lembrava. E mesmo que não sentisse, eu inventaria que senti! Eu notei o brilho do olhar mudar e o sorriso perder-se dando espaço a uma expressão de duvida.
Um instante depois eu já não a via. Sorri infeliz, senti saudades de alguém que eu nem sabia o nome. Balancei a cabeça, amarrei o cadarço e tomei meu caminho. Desde então me lembro daquele olhar, todos os dias eu aguardo a ligação, iludo cada parte do meu ser, cada partícula do meu sentir, esperançoso de que ela ainda tinha aquele papel, a iniciativa tardia e desesperada que realizei para tornar a ficar próximo dela novamente.
Hoje faz quatro dias desde o show. Hoje recebi um torpedo “Oi! Adorei a camiseta. E me desculpe mesmo pelo esbarrão. Angel”
Sorri.

4 comentários:

Luciana Amancio disse...

Nossa Ale que legal esse conto, adorei, me fez imaginar as cenas narradas! Bjuuss

Arianne Carla disse...

Surpreendente! Me fascinou por completo do início ao fim! Ah, essas sensações acontecem realmente em nossas vidas, e uma estória assim fora tão bela! Fiquei triste por que ela não retornou rápido... mas nós meninas na grande maioria das vezes são assim. Enfim, adorei, deveria investir em contos. *-*

Maria Fernanda disse...

Eu poderia perder várias horas dos meus dias, e semanas dos meus meses lendo o que escreves. Como sempre sua narrativa é cinestesica e visual. Em contos curtos pareces fidedigno a escrita linear, Vida... ia aodrar ver vc usar seus paradoxos poeticos em um conto, viu? Bjos Te adoro.

leticía disse...

querido o que você escreve é algo que me faz ter a impreção de poder ver as cenas, você descerve de forma que chama o leitor a sentir e se emocionar a cada narrativa... é sempre muito bom poder ler e se emocionar com cada um de seus contos,
adorei assim q tiver novidades me avise aguardo anciosa. bjos